Crise na Saúde Infantil: DenaSUS Inspeciona Hospital da Criança em São Luís sob Suspeita de Negligência e Cortes de Equipe
- Tribuna do Maranhão

- 14 de jul.
- 3 min de leitura

Uma força-tarefa do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS) realizou uma inspeção presencial nesta terça-feira (14 de julho de 2026) no Hospital da Criança Odorico Amaral de Matos, em São Luís (MA). A auditoria federal apura denúncias gravíssimas de negligência médica, redução drástica de equipes de UTI, falta de insumos e uma alarmante discrepância nos dados de óbitos infantis.
Coordenada pelo diretor do órgão, Rafael Bruxellas, a equipe de cinco técnicos analisa prontuários, escalas de plantão e contratos. O relatório final deve ser divulgado nos próximos dias. Além do DenaSUS, o caso é alvo de inquéritos do Ministério Público do Maranhão (MP-MA), do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública do Estado.
A Dança dos Números: Suspeita de Subnotificação
O principal estopim para as investigações foi o aumento expressivo na mortalidade dentro das UTIs da unidade, acompanhado de indícios de ocultação de dados no sistema federal.
Origem do Dado | Registro de Óbitos (2024) | Registro de Óbitos (2025) | Registros (1º Semestre de 2026) |
Denúncias / Relatórios Internos | 39 mortes (nas UTIs) | 113 mortes (101 nas UTIs) — Alta de 159% | 65 mortes (53 nas UTIs) — Alta de 38,8% |
Prefeitura de São Luís | 112 mortes | 117 mortes — Alta de 4,5% | Não especificado |
DataSUS (Governo Federal) | Não disponível | 31 mortes | Não especificado |
O Alerta dos Médicos: Sob anonimato, profissionais da saúde explicam que a diferença de 86 mortes ocultadas entre o dado municipal e o DataSUS em 2025 impede o planejamento básico de saúde pública e mascara falhas graves que tornam esses óbitos evitáveis.
Vidas Interrompidas: Os Casos Sob Investigação
As investigações ganharam rostos e relatos dolorosos de mães e pais que apontam omissão e falhas de diagnóstico no atendimento aos seus filhos.
Kerliane (7 anos)
Internada após uma queda com dor na perna, teve alta mesmo com exames apontando anemia e coágulo. Retornou com quadro agravado e infecção generalizada. Passou dois dias entubada em uma sala comum antes de conseguir vaga na UTI. Faleceu em 29 de abril por choque séptico e pneumonia.
"Minha filha não estava tão mal... A perna dela foi só inchando e a médica disse que era normal. Quando pensaram em fazer a drenagem, ela faleceu. É uma coisa que mata a gente todo dia."— Jainara Sousa, mãe de Kerliane.
Otto (9 meses)
Chegou a ser transferido da UTI para a enfermaria ainda em estado instável, onde piorou drasticamente. Após receber alta em outro hospital, retornou ao Hospital da Criança em janeiro de 2026 com infecção intestinal. A família relata demora em exames e precisou comprar insumos do próprio bolso, incluindo luvas, sondas e anticonvulsivantes de R$ 600. O bebê faleceu de choque séptico após 17 dias.
"Tenho plena convicção de que meu filho morreu por negligência. Nunca falaram para a gente que ele estava com sepse ou pneumonia."— Leyciane Barbosa, mãe de Otto.
Os Gêmeos Bento e Bernardo (4 meses)
Diagnosticados com bronquiolite em 27 de junho de 2026. Bento agravou rapidamente e faleceu após paradas cardíacas na UTI. Bernardo, que inicialmente tinha sintomas leves, piorou na sala de medicação e faleceu cerca de 24 horas após o sepultamento do irmão.
"Enterrar dois filhos em menos de 24 horas é inadmissível. Faltou atenção, faltou profissionalismo."— Ismael e Samila, pais dos gêmeos.
Terceirização e Desfalque nas Escalas de UTI
A crise no hospital coincide com a mudança de gestão das UTIs ocorrida em outubro de 2025, quando o Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) assumiu o serviço por meio de licitação.
Segundo denúncias de funcionários e da Defensoria Pública (DPE-MA):
Corte de Médicos: A escala de plantão das três UTIs, que antes contava com até 53 médicos divididos em turnos de 6 a 8 profissionais, passou a operar, em muitos dias, com apenas um médico para cada UTI.
Falta de Especialização: Há denúncias de que médicos plantonistas contratados não possuem especialização ou experiência prévia em pediatria.
Erros Técnicos: Relatos apontam incapacidade de equipes em manusear equipamentos básicos de emergência, como desfibriladores em paradas cardíacas.
A Defensoria Pública solicitou a anulação imediata do contrato com o IBMED ao Ministério Público devido às irregularidades encontradas no edital.
O Posicionamento das Autoridades
Prefeitura de São Luís: Nega o desabastecimento generalizado de insumos, alegando apenas "flutuações sazonais resolvidas com remanejamento". Contesta o aumento expressivo de mortes, atribuindo a discrepância de dados do DataSUS a atrasos de processamento do próprio sistema federal. Afirma que as UTIs seguem os critérios da Anvisa e que a licitação do IBMED foi validada pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Conselho Regional de Medicina (CRM-MA): Informou que fiscaliza a unidade para garantir a segurança dos pacientes e as condições técnicas de trabalho da equipe médica.
Ministério Público Federal (MPF): Confirmou o recebimento das denúncias e informou que o caso foi distribuído a um procurador da República para apuração.
Ministério da Saúde: Confirmou o envio da equipe do DenaSUS para inspeção in loco e averiguação das graves denúncias enviadas à Ouvidoria do SUS.




Comentários